Fevereiro 23, 2012

Merda, carnaval, Rio de Janeiro e moradores de rua

Alguém já ouviu falar em merda ácida? Eu sei que o assunto é um tanto desagradável e que ninguém nunca deve ter parado para pesquisar. Mas eis que a vida põe no nosso caminho uma bosta e, envolvendo-se nela, surge uma filosofia fedorenta e uma química estranha debaixo dos pés.

Estava eu – lindo –, de bermuda branca – combinando com o tênis –, respirando o mesmo ar que muitos, naquela rua do centro do Rio de Janeiro. Carnaval tomava de conta, e eu, todo boizinho, no auge daquela festa, estava no sorriso só. Em um passo firme no chão de uma calçada, no meio de tanta gente, tive uma distinta sensação de ter enfiado o pé em algo escorregadio e pastoso. Era algo enorme, na textura de um prato de papa de aveia, na cor de um tijolo queimado, no odor de um rato pobre, na circunferência de uma assadeira, no volume de dez bolas de sorvete. Imediatamente fechei os olhos e me segurei na parede ao lado, porque ainda me fez um zept escorregadio, por onde quase caía e completava de vez a cena.

_ Senhor, não me diga que isso é merda. Não me diga que isso é merda. Por favor, não me diga!

Depois de clamar ao Senhor por três vezes, eis que o ar confirma a resposta: era merda!

_ Puts! Que merda! Caralho, que merda!!! #$@5%dah&8@#

As pessoas que passavam olhavam com certo desdém. E minha cara de pavor, indignação e ódio agregavam valor ao episódio.

Batia o pé no chão intensivamente, mas parecia não adiantar. A merda tinha uma colagem vigorosa e acúmulo por entre os pinos do sapato. Olho para trás e vejo rostos pavorosos, como se dissessem: _ Catinga de merda da porra! Vai te fud#$5&8ds#@... Estava tão constrangido. Parecia que a merda tinha saído de mim naquela hora.

Sentei-me num lugar menos movimentado e comecei a bater mais um pouco o pé no chão. Como nada adiantava, decidi deixar o restinho grudado no tênis, para lavar em casa.

Antes de chegar ao portão da 235 (número da residência), retirei o tênis com delicadeza e joguei-o no quintal.

Três dias de chuva e sol para ter coragem de ir fazer a lavagem. A merda tava sequinha, grudada até na lateral. Joguei água e sabão, deixando de molho por alguns minutos. Jato forte de água, olhos fechados, respiração controlada, cabeça virada e careta.

Não acreditei quando vi que a merda tinha voltado a ficar verdinha, como feijão seco que volta a ser verde quando de molho.

A merda desceu pelo ralo levando consigo cores do tênis. Era como um removedor de manchas que por onde salpica, deixa sua marca. Não sei se consigo calçar de novo depois do trauma.

Mas tem algo no texto (plenamente baseado em fatos reais) que não foi observado: o que fazia uma merda daquela no meio de uma rua, no centro da cidade turística supervisitada, considerada maravilhosa?

Não há disenteria no mundo para fazer uma bunda baixar naquele lugar. Mas não era cocô de passarinho, nem de pombo. Mesmo não sendo profundamente estudada, dava para concluir que era de gente humana. É que nas ruas da “cidade maravilhosa”, existem centenas de moradores que possuem condições mínimas de higiene.

Então vou jogar a culpa nessas pessoas, que não tem casa própria para viver e fazer suas necessidades fisiológicas. Vou culpá-los também pela pobreza extrema de dormir nas calçadas e de repetirem as mesmas roupas sem ao menos lavá-las. Vou denunciá-los de atentado ao pudor, quando por tomarem banho nas fontes das praças ou quando usam garrafas peti com água para se banhar. Vou julgá-los por ferir a constituição, já que no artigo 233 é considerado crime ′praticar ato obsceno em lugar público ou aberto ou exposto`.

Mas veja só, quanta sujeira, heim? Muito bom achar que o problema é de quem não tem casa, quando temos um conforto mínimo de vida. Certamente, a pessoa que está lendo esse texto, tem uma rotina de trabalho, escola, igreja... Ao final do dia possui um endereço aconchegante para recarregar energias, descansar do fardo.

Entretanto, como vimos, não todos possuem esse direito humano universal. São famílias inteiras morando debaixo de pontes, bancos de praça, ou em algum cantinho de prédio que lhe deem “conforto”. Papelão como colchão, lençóis velhos ou jornais como cobertores, calçadas mais altas como travesseiros. Caixotes para guardar tudo. E quando vem a chuva é preciso disputar os lugares, quase sempre driblando seguranças de prédios comerciais.

É nesse contexto que a merda fede ainda mais. A cidade escracha seus problemas sociais que são tão graves quanto poder prestar a grandiosa reforma do Maracanã. E nem adianta esconder tudo debaixo do tapete se decidir fazer ação de recolhimento dessas pessoas. São questões complexas que necessitam de atenção, cuidado, delicadeza. A mesma delicadeza que tive ao retirar o tênis melado de merda e estudar uma forma de limpá-lo. Mas a vida dessas pessoas não é um objeto de uso. É necessário urgência, priorização, cumprimento dos Direitos Humanos. Reverter o passado e oportunizar o presente. É necessário igualdade!

Quero que meus impostos cheguem a estas pessoas para tratá-las, reeducá-las, devolvê-las a sociedade para que pintem o Brasil “com tinta óleo”, como disse meu grande amigo mamulengueiro Zé de Vina, sobre quando me contava da cultura linda de artistas que viu em Brasília. Mas a outra cultura, de descaso, precisa ser lavada, desinfetada. É disto que as ruas do centro do Rio de Janeiro e de tantas outras capitais brasileiras precisam.

Enquanto nada se resolve, outra merda está sendo depositada lá fora. Não adianta deixar passar os dias, porque a merda no fundo, no fundo, sempre estará verdinha.

Nem tudo está perdido. Existem grupos organizados da sociedade civil que lutam pela causa. É necessário esforço coletivo e, sobretudo, ser influência para criação e melhoria nas políticas públicas.

Eu continuo com meu tênis ao sol. Voltarei a usá-lo porque ainda possui boas condições. Tomarei mais cuidado ao andar pela cidade. Sobre a merda? Bom... Quem sabe pode ser usada na Copa de 2014 para destruir a chuteira dos argentinos...

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